A lenda negra e a história real
A 'lenda negra' exagerou cifras e crueldades; a pesquisa de arquivo corrige os mitos sem absolver os abusos reais.
- Tipo
- contexto
- Século
- XVI-XXI
- Ano
- séc. XVI em diante
- Local
- Europa
A 'lenda negra' é a imagem propagandística da Inquisição — sobretudo da espanhola — forjada a partir do século XVI por adversários políticos e religiosos da Espanha católica, no contexto das guerras de religião. A literatura iluminista e romântica fixou a figura de uma máquina de terror onipresente que teria matado milhões.
A historiografia moderna, baseada nos próprios arquivos inquisitoriais (Henry Kamen, Edward Peters em 'Inquisition', Gustav Henningsen, Agostino Borromeo, John Tedeschi), desmontou os exageros. As cifras de 'milhões de mortos' são fantasiosas: a Inquisição Espanhola executou algo entre 3.000 e 5.000 pessoas em mais de 350 anos. Muitos processos terminavam em absolvição ou pena leve; a tortura, embora real, era regulada e aplicada a uma minoria dos casos, por vezes com mais garantias que nos tribunais civis da época. O simpósio internacional convocado pelo Vaticano em 1998, com atas publicadas em 2004 sob coordenação de Borromeo, consolidou esses dados com acesso aberto aos arquivos.
Mas corrigir o mito não é fazer apologia. A pesquisa séria mantém duas verdades juntas: as cifras foram muito menores do que a propaganda; E houve injustiça, tortura, execuções, censura e sofrimento humano real, incompatíveis com a dignidade da pessoa. Recusar tanto a 'lenda negra' quanto a 'lenda rosa' (a apologética ingênua) é a postura honesta.
Foi nesse espírito que São João Paulo II, no Jubileu de 2000, pediu perdão pelos pecados cometidos pelos filhos da Igreja em nome da fé. Verdade histórica e contrição caminham juntas.